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sexta-feira, abril 16, 2010

"É muito mais fácil matar um fantasma do que matar uma realidade."







"All these voices sounded gratefully in St. John's ears as he lay half-asleep, and yet vividly conscious of everything around him. Across his eyes passed a procession of objects, black and indistinct, the figures of people picking up their books, their cards, their balls of wool, their work-baskets, and passing him one after another on their way to bed (The Voyage Out, Virgínia Woolf)."





Como se fosse uma continuação, de Sylvia para Virginia. Por que estou tão centrada assim ultimamente? Talvez nem eu saiba – ou não. Mas, vamos "trying to keep this". Mas, vou fazer a biografia antes - a da Sylvia me deu um desânimo, perdão por esse ato inaceitável!
Virgínia Woolf nasceu em Londres, 25 de Janeiro de 1882 e faleceu em Lewes, dia 28 de Março de 1941, e ainda é considerada uma das mais importantes escritoras britânicas. Estreou na literatura com The Voyage Out (romance, 1915), seguindo para Night and Day (1919), Jacob's Room (1922), Mrs. Dalloway (1925), The Common Reader (1925 - Primeiro volume), To the Lighthouse (1927), Orlando: A Biography (1928), The Waves (1931), The Common Reader (1932 - Segundo volume), Flush: A Biography (1933), The Years (1937), Roger fry (1940), Between the Acts (1941, publicado depois de sua morte), terminado com Contos Completos (1917-1941, uma coletânea ).
A obra de Virginia modernista (ainda estou devendo um resumo sobre os períodos da literatura, estou me sentindo sobrecarregada, da próxima vez faço um blog sobre algo mais chamativo e menos preocupante, lembrem-me disso!). O fluxo de consciência (utilizado por Clarice também) foi uma de suas marcas mais conhecidas e da qual é considerada uma das criadoras.
Casou-se com Leonard Woolf criando assim, em 1917 a editora Hogarth Press que revelou escritores como Katherine Mansfield e T.S. Eliot. Virginia sempre apresentou crises depressivas, e acabou cometendo suicídio em 1941.
Virginia também foi integrante do Bloomsbury, um círculo de vários intelectuais que, após a Primeira Guerra Mundial, se posicionou contra as tradições literárias, políticas e sociais da Era Vitoriana.


Por Jessica.


P.s: Vamos combinar de comentar de algo mais calmo na próxima vez.

quinta-feira, abril 15, 2010

"Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos."

(...) Depois tudo passou e Macabéa continuou a gostar de não pensar em nada. Vazia, vazia. Como eu disse, ela não tinha anjo da guarda. Mas se arranjava como podia. Quanto ao mais, ela era quase impessoal. Glória perguntou-lhe:
- Por que é que você me pede tanta aspirina? Não estou reclamando, embora isso custe dinheiro.
- É para eu não me doer.
- Como é que é? Hein? Você se dói?
- Eu me dôo o tempo todo.
- Aonde?
- Dentro, não sei explicar.
Aliás cada vez mais ela não se sabia explicar. Transformara-se em simplicidade orgânica. E arrumara um jeito de achar nas coisas simples e honestas a graça de um pecado. Gostava de sentir o tempo passar. Embora não tivesse relógio, ou por isso mesmo, gozava o grande tempo. Era supersônica de vida. Ninguém percebia que ela ultrapassava com sua existência a barreira do som. Para as pessoas outras ela não existia. A sua única vantagem sobre os outros era saber engolir pílulas sem ágúa, assim a seco. Glória, que lhe dava aspirinas, admirava-a muito, o que dava a Macabéa um banho de calor gostoso no coração. Glória advertiu-a:
- Um dia a pílula te cola na parede da garganta que nem galinha de pescoço meio cortado, correndo por aí.

Depois de falar de Clarice, pensei muito na ideia de colocar uma de suas obras mais conhecidas, "A Hora da Estrela". Esse foi a última obra de Clarice, que soou como uma despedida, já que pouco tempo depois ela morre - não gosto desses detalhes, afinal para mim, uma escritora como ela, jamais morre.
A história começa sendo narrada por Rodrigo S. M. , um escritor que chega a ironizar a própria obra, pelo estilo de narrativa que ele utiliza. O "narrador-personagem" conversa com o leitor, dizendo que se sente sufocado, e escreve porque se sente desesperado e cansado, e só escrevendo ele alcança novidades, e sem isso, já estaria morto. Após, Rodrigo revela que está escrevendo sobre a vida de uma pessoa tão simples - e está vestindo roupas rasgadas, faltando fazer a barba - , e durante o período que ele escreve (se dedica a esses livros), nem pensa, nem vê e faz nada que o influêncie.
Rodrigo conta a história de Macabéa (andei lendo uns detalhes realmente interessantes, e descobri que o nome da personagem vem de uma irônica comparação aos sete macabeus, personagens da bíblia), uma retirante nordestina, que logo após a morte de seus pais, passa a morar com uma tia, beata, que batia muito nela. Maca, muda-se de Alagoas para o Rio de Janeiro, passando a viver em um quarto com várias Marias na rua do Acre, só tinha até o terceiro ano do primário e trabalhando como datilógrafa - profissão da qual se orgulhava, mas não executava tudo com perfeição, errando diversas palavras, chegando quase a ser demitida, só que seu patrão, Raimundo, mediante o pedido de desculpas, diz que será "demitida mais adiante".
Macabéa era uma pessoa "vazia", fazia quase tudo mecânicamente, Rodrigo diz que ela "vivia em tanta mesmice que de noite não se lembrava do que acontecera de manhã". Quando sentia fome durante a noite, comia papel imaginando que era uma "coxa de vaca"; rezava toda noite (parou de frequentar a igreja, logo que sua tia morreu), mas não acreditva em Deus, porque ela não sabia como ele era, e para ela, ele não exitia.
Um dia, Maca mentiu para o patrão, dizendo que iria arrancar um dente, e pela primeira vez, deu-se o prazer de não fazer nada. Neste mesmo dia, pela tarde, ela arruma um namorado chamado Olímpio de Jesus - mentia se chamar Olímpico de Jesus Moreira Chaves, era nordestino também, e era uma pessoa muito pobre culturalmente, além de "judiar" muito da protagonista-personagem.
Uma das poucas coisas que Maca gostava, era tomar café frio (mesmo sentindo azia depois), pintar as unhas de vermelho, ir uma vez ao mês no cinema e ouvir uma através de um rádio emprestado, a chamada "Rádio Relógio" - com isso, novamente pode-se perceber a inocência que havia nela, e que foi literalmente "destruída": "Ouvia na Rádio Relógio que havia sete bilhões de pessoas no mundo. Ela se sentia perdida. Mas com a tendência que tinha para ser feliz logo se consolou: havia sete bilhões de pessoas para ajudá-la".
Pouco tempo depois, Olímpico termina o namoro com Macabéa, interessandos-se pela "colega de trabalho de Maca", a chamada Glória (Olímpico termina o namoro chamando ela de "cabelo na sopa", já a moça era "carioca da gema" e com ela obteria a ascensão social que tanto almeja.
Glória, se sente culpada e começa a conversar com Maca (tornando-se agora a única ligação que a moça obtém com o mundo), recomendando que ela vá em um médico (o "médico de pobre", que a trata mal e dá como diagnóstico o início de uma turbeculose, e receita um remédio que Maca não compra, acreditando que somente à visita ao médico irá curá-la).
Seguindo os conselhos de Glória, novamente, Maca vai a uma cartomante - chamada Madame Carlota -, onde recebe pela primeira vez a notícia que teria um futuro, se sente "grávida de futuro", mas acaba morrendo logo após, atropelada por um carro e tendo seu breve minuto como estrela (sendo rodeada por pessoas para ver seu corpo). Nesse exato momento Rodrigo também provavelmente morre com a Maca, acabando assim a história.
Comparo essa parte ao conto do Machado de Assis, gera o mesmo sentimento : um mistura de indignação com a situação de Macabéa, as injustiças que ela passou, e a certeza de que o final iria ser esse, por mais cruel que a realidade seja.
Por Jessica.
Sabe aquela sensação temporária do nada, a falta do "sentir" que Macabéa cita? Toda vez que termino de ouvir histórias que terminam de maneira previsível e inacreditáveis (para mim, isso é um paradoxo), como em A Hora da Estrela, O Mulato, e o conto do Machado que já citei, parece que elas afloram com um sentimento de culpa e impunidade, "não sei como agir com o mundo". Muito menos explicar tudo que falei anteriormente. Finjam que adiantou de algo.

sábado, abril 10, 2010

Um pouco mais de Clarice.

"Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja."

Por Clarice, de "Onde estivestes de noite" - 7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro – 1994.

segunda-feira, abril 05, 2010

"Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam."

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.” Clarice.



Não sabia como escrever sobre ela, só sabia que devia. Acredito que não existe como começar algo, principalmente relacionado à alma, sem citar minha amada Clarice Lispector. Uma das poucas e mais que boas, únicas.
Clarice nasceu Tchetchelnik - apenas alguns detalhes, tudo isso por uma breve introdução, entendam! -, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro, mas nascimento ocorre durante a viagem de emigração da família em direção à América. A família muda-se para Recife, Pernambuco, e passa por sérios problemas - a mãe de Clarice ficou paralítica, morrendo pouco depois, e sua irmã ficou responsável de cuidar da casa. Mesmo com sua vida conturbada, termina seu curso de direito, casa-se com o colega de faculdade Maury Gurgel Valente - separando-se "tempos depois". Seu marido ingressa na carreira diplomática por concurso. Tem dois filhos - Paulo e Pedro. Dedica-se completamente aos livros, e vem a falecer no Rio de Janeiro, dia 9 de dezembro de 1977, pouco antes do seu 57° aniversário.
Quando Clarice surgiu, na década de 40, ocasionou um grande choque para os leitores e críticos da época. Mas, até hoje, seu jeito indecifrável, cativa um público que se torna crescente e cada vez mais se identifica com sua obra. Vários trabalhos – entre eles artigos, ensaios, teses – tentam entender sua obra, que provocam paradoxos, graças ao fascínio e o mal-estar que giram em torno de seus prováveis significados.
Sendo rejeitada por uns e vangloriada por outros ao longo de seus mais de 30 anos de produções literárias – e uma vasta quantidade de contos, romances, livros infantis e contos -, Clarice sempre resiste às várias classificações que recebe, e sempre define sua vida de maneira “indireta”: "Levo uma vida muito corriqueira. Crio meus filhos. Cuido da casa. Gosto de ver meus amigos. O resto é mito.”
Digo que Clarice sempre foi uma mulher muito avançada, suas percepções acerca do mundo são muito amplas. Seus textos mostram diversos choques com a realidade - situação que na maioria das vezes ocorre principalmente com as mulheres em sua obra, já que as mesmas sempre sofreram "certas repressões". A epifania que muitas de suas protagonistas obtêm, doem - afinal, é difícil admitir os erros.

Coloquei a lista com suas obras, quem sentir vontade de ler algum, por livre e espontânea vontade, parabéns! o_o

1. Romances:

  • Perto do Coração Selvagem (1944);
  • O Lustre (1946);
  • A Cidade Sitiada (1949);
  • A Maçã no Escuro (1961);
  • A Paixão segundo G.H. (1964);
  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (1969);
  • Água Viva (1973);
  • A Hora da Estrela (1977);
  • Um Sopro de Vida (pulsações) (1978).


2. Contos:

  • Alguns Contos (1952);
  • Laços de Família (1960);
  • A Legião Estrangeira (1964);
  • Felicidade Clandestina (1971);
  • A Imitação da Rosa (1973);
  • A Via Crucis do Corpo (1974);
  • Onde Estivestes de Noite (1974).


3.Crônica:

  • Visão do Esplendor (1975);
  • Para não Esquecer (1978).

4. Literatura infantil:

  • O Mistério do Coelho Pensante (1967);
  • A Mulher que Matou os Peixes (1968);
  • A Vida Íntima de Laura (1974);
  • Quase de Verdade (1978) .


5. Obras póstumas (Coletâneas de contos, crônicas ou entrevistas organizadas e publicadas postumamente):

  • A Bela e a Fera (1979) – reunião de contos inéditos escritos em épocas diferentes;
  • A Descoberta do Mundo (1984) – seleção de crônicas publicadas em jornal entre agosto de 1967 e dezembro de 1973 ;
  • Como Nasceram as Estrelas (1987) – contos infantis;
  • Cartas Perto do Coração (2001) – cartas trocadas com Fernando Sabino;
  • Correspondências (2002);
  • Aprendendo a Viver (2004) – seleção de crônicas publicadas em jornal entre agosto de 1967 e dezembro de 1973;
  • Outros Escritos (2005) – reunião de textos de natureza diversa;
  • Correio Feminino (2006) – reunião de textos publicados em suplementos femininos de jornais, nas décadas de 1950 e 1960;
  • Entrevistas (2007) – seleção de entrevistas realizadas nas décadas de 1960 e 1970 ;
  • Minhas Queridas (2007) – correspondências ;
  • Só para Mulheres (2008) – reunião de textos publicados em suplementos femininos de jornais, nas décadas de 1950 e 1960.

Referências Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_obras_de_Clarice_Lispector>

Por Jessica.

P.s: Achei esse site realmente bom, {http://www.claricelispector.com.br/}. Tem pensamentos e é tão lindo! *-* (cansei).